No guichê, pediu uma passagem para o primeiro ônibus que saísse, sem
sequer saber para onde partiria. Pagou com umas notas de R$2,00 e várias
moedas; era um pouco do que tinha restado da bebedeira nesta cidade que agora
deixava. Depois de 2 ou 15 horas dormindo no ônibus, não saberia dizer, desceu
numa pracinha cercada por uma igreja e uma mercearia. Ali, em brinquedos
enferrujados, brincavam umas três ou quatro crianças, tão caladas que o máximo
de emoção que passavam era tédio. Com a mochila surrada nas costas, desceu em
direção à estrada. Do destino ela não fazia ideia. Nem do próprio e nem do das
estradas. O cabelo apontava em todas as direções, tal era a força do vento.
Então dessa vez ela não poderia ir para onde ele apontava, de modo que foi
andando rumo a qualquer lugar onde pudesse conhecer outras pessoas -mesmos
hábitos- e renovar a sensação de liberdade, que já se esvaía quando resolvera
deixar a velha cidade. Depois de pouca caminhada, um restaurante de beira de
estrada. Entrou ali e comprou uma garrafa do destilado mais barato que tinham,
usou o banheiro, lavou o rosto e começou a retomar a caminhada até o novo
não-destino. Na saída do restaurante para a estrada, caminhava no limite de
velocidade que conseguia sem que suasse demais, com o Sol a pino na cabeça de
cabelos curtos amarrados num emaranhado meio escabelado. Acompanhando sua
velocidade ínfima, aproximou-se um furgão barulhento, todo colorido – uma miragem
no meio desse nada.
- Vai pra onde? – perguntou uma bela garota do banco de passageiros.
Estava acompanhada de um cara e de outra garota, que dirigia. Tinha cara de
ressaca e longos cabelos negros, inacreditavelmente bagunçados, como quem
acabara de ter a noite mais insana dos últimos vários anos.
- Lugar nenhum, ou qualquer lugar. – ela respondeu, prestando muita
atenção na menina e suas olheiras. Combinavam com ela, conferiam-lhe um aspecto
de garota CBGB’s, irresistível.
As duas garotas e o cara sentado entre elas se olharam por uma
fração de segundo e a motorista berrou: - Sobe aí, cara!
Tentou escolher entre a carona inesperada e a insaciável vontade de
caminhar, mas o sol e as olheiras que a encaravam não deixaram muito tempo para
refletir: abriu a porta traseira, de correr, e subiu. Lá atrás não tinha
bancos, mas um pano gigante e colorido estendido, com almofadas e todo tipo de
resquício de noite espalhados por cima. Parecia ótimo. Largou a mochila num
canto e tomou um gole do destilado. Pensou em perguntar para onde iam, mas de
repente pensou que seria melhor não saber. Dividiram seu destilado e suas
histórias, fumaram alguns e curtiram o vento com as caras pra fora das janelas.
O sol já tinha se posto há várias horas quando acordou
abraçada à garota das olheiras. De um susto, levantou e se lembrou de onde e
com quem estava. Sorriram uma pra outra e a garota apontou através da janela, e
foi quando viram a placa: “Bienvenidos a Colombia”. “uau”, ela pensou. “eu não
falo espanhol.” Deu mais uma olhada na sua garota e então concluiu que era seu paraíso.
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