terça-feira, 24 de abril de 2012

Eu não falo español no paraíso


No guichê, pediu uma passagem para o primeiro ônibus que saísse, sem sequer saber para onde partiria. Pagou com umas notas de R$2,00 e várias moedas; era um pouco do que tinha restado da bebedeira nesta cidade que agora deixava. Depois de 2 ou 15 horas dormindo no ônibus, não saberia dizer, desceu numa pracinha cercada por uma igreja e uma mercearia. Ali, em brinquedos enferrujados, brincavam umas três ou quatro crianças, tão caladas que o máximo de emoção que passavam era tédio. Com a mochila surrada nas costas, desceu em direção à estrada. Do destino ela não fazia ideia. Nem do próprio e nem do das estradas. O cabelo apontava em todas as direções, tal era a força do vento. Então dessa vez ela não poderia ir para onde ele apontava, de modo que foi andando rumo a qualquer lugar onde pudesse conhecer outras pessoas -mesmos hábitos- e renovar a sensação de liberdade, que já se esvaía quando resolvera deixar a velha cidade. Depois de pouca caminhada, um restaurante de beira de estrada. Entrou ali e comprou uma garrafa do destilado mais barato que tinham, usou o banheiro, lavou o rosto e começou a retomar a caminhada até o novo não-destino. Na saída do restaurante para a estrada, caminhava no limite de velocidade que conseguia sem que suasse demais, com o Sol a pino na cabeça de cabelos curtos amarrados num emaranhado meio escabelado. Acompanhando sua velocidade ínfima, aproximou-se um furgão barulhento, todo colorido – uma miragem no meio desse nada.
- Vai pra onde? – perguntou uma bela garota do banco de passageiros. Estava acompanhada de um cara e de outra garota, que dirigia. Tinha cara de ressaca e longos cabelos negros, inacreditavelmente bagunçados, como quem acabara de ter a noite mais insana dos últimos vários anos.
- Lugar nenhum, ou qualquer lugar. – ela respondeu, prestando muita atenção na menina e suas olheiras. Combinavam com ela, conferiam-lhe um aspecto de garota CBGB’s, irresistível.
As duas garotas e o cara sentado entre elas se olharam por uma fração de segundo e a motorista berrou: - Sobe aí, cara!
Tentou escolher entre a carona inesperada e a insaciável vontade de caminhar, mas o sol e as olheiras que a encaravam não deixaram muito tempo para refletir: abriu a porta traseira, de correr, e subiu. Lá atrás não tinha bancos, mas um pano gigante e colorido estendido, com almofadas e todo tipo de resquício de noite espalhados por cima. Parecia ótimo. Largou a mochila num canto e tomou um gole do destilado. Pensou em perguntar para onde iam, mas de repente pensou que seria melhor não saber. Dividiram seu destilado e suas histórias, fumaram alguns e curtiram o vento com as caras pra fora das janelas.

O sol já tinha se posto há várias horas quando acordou abraçada à garota das olheiras. De um susto, levantou e se lembrou de onde e com quem estava. Sorriram uma pra outra e a garota apontou através da janela, e foi quando viram a placa: “Bienvenidos a Colombia”. “uau”, ela pensou. “eu não falo espanhol.” Deu mais uma olhada na sua garota e então concluiu que era seu paraíso.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Na veia


Pegamos uma velha estrada, longa e sinuosa, com destino a algum lugar no mato. Era de verde e ar que a gente corria atrás; era a fuga de todo aquele cinza e aquela fumaça cotidianos mais rápida e eficaz que pudemos pensar. Fazia um tempo quente e nossos corpos por si só já tinham uma temperatura muito alta - só por algum milagre ainda não havíamos entrado em combustão espontânea juntos. E lá, no nosso destino, fosse ele qual fosse, fazia frio.
          Tínhamos álcool e THC aos montes, de modo que a próxima coisa de que me lembro era de estarmos em um colchão jogado no chão, no qual mal era possível dizer o que pertencia a quem, entre pernas e braços e cabelos e barba e beijos e abraços, tudo num amontoado indistinguível. Tínhamos os rostos colados um ao outro e tudo o que eu podia ver eram seus olhos, muito pretos, encarando os meus tão de perto que eu arriscaria dizer que viam minha alma. Afinal eles são como janelas, certo? Ele me deixava alta de todas as formas e esses eram os melhores picos de êxtase que eu experimentara nos últimos tempos. Era melhor que qualquer droga que eu já tivesse usado, e viciava igual. Me parecia perigoso. Mas eu sempre gostei de adrenalina.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Qualquer coisa de banal

O coração estava pequeno e ainda em diminuição. Ele me encarava com os olhos inexpressivos, parado bem na minha frente. Encolhida em cima do colchão, com as costas na parede fria, eu abraçava as pernas e o encarava de volta, com a cabeça encostada nos joelhos: estava sentado numa cadeira, as pernas esticadas com os tornozelos cruzados em cima do colchão, e as mãos se cruzavam atrás da cabeça. Parecia tomar sol ou dar uma ordem a algum funcionário, ou qualquer outra coisa tão banal quanto. O relógio dizia que apenas cinco minutos haviam se passado, mas a mim pareciam já horas desde que ele anunciara o fim como quem pede uma bala pra moça do balcão. Sem aviso prévio, sem dar dicas, sem deixar o relacionamento decair minimamente. Sem opções de soluções, sem prazo pra contestação, sem nenhum tipo de consideração da qual eu fosse digna. Simplesmente “não estou feliz”, ele começou, “quero terminar”, eu completei mentalmente; “quero terminar”, ele terminou. Então foi assim. Nesse momento acho que o colchão, o estrado da cama e o chão se abriram exatamente embaixo de mim. O que restava do coração eram umas cinzas amontoadas sob o peito esquerdo. Minhas têmporas latejavam, fazendo minha cabeça ficar quente. Eu não conseguia pensar em nada, só conseguia sentir uma dor fodida e incessante exatamente onde, antes, ficava o coração. Ela saía pelos olhos e entrava de volta pela boca, salgada e escorregadia, a dor. Durante as cinco horas que se seguiram, eu só consegui pensar em três coisas nada úteis, enquanto enxugava os olhos com uma toalha preta e ele continuava lá, sentado, parado, vez ou outra segurando a cabeça com as mãos e me olhando, sem dizer nada e aparentemente sem pensar nada – seus olhos estavam vazios, ou talvez fosse assim que eu passara a vê-los. Depois de muito diálogo bem formulado, ele me propôs desistir do fim; apesar de que a mim soava mais como adiá-lo. Concordei. Não consegui dormir durante todo o resto da madrugada. Só fazia me revirar na cama entre um cochilo e outro, dos quais acordava pensando se tinha sonhado com tudo aquilo.

O dia seguinte amanheceu sem sol, e a primeira coisa que eu li foi “e, de qualquer forma, às cegas, tenho feito o que acredito, do jeito talvez torto que sei fazer”, numa página que abri a esmo n’um livro do bom e velho psicólogo dos corações partidos, Caio F. Era isso, o jeito torto não é o suficiente e não pode ser interpretado como certo.

domingo, 15 de abril de 2012

Primeiro

O que Deus disse não foi "desce e arrasa", mas "desculpem-nos pelo infortúnio". Agora já era, o jeito é viver. No meio da bagunça, do caos, da loucura, resolvi escrever pra não surtar. Comecei bem. Mas percebi que preciso do meu próprio espaço, e agora é a hora e esse, resolvi, será o dito cujo. Alimentar e cumprir expectativas alheias nunca foi meu forte, de modo que egoisticamente dedico esse espaço só a mim mesma.