quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Doces e Travessuras


O dilema da vez era alguma coisa confusa e nebulosa sobre coincidências e destino. Eu não podia dizer qual a relação entre eles e nem se acreditava ou não, especialmente agora, que só fazia cambalear por aí muito bêbada ou chapada pra esboçar qualquer desejo de filosofar ou pensar qualquer tanto que valesse sobre essas coisas corriqueiras da vida. Que importa, no fim das contas? A efemeridade da idéia de coincidência e a idéia da efemeridade de coincidências pararam de me rondar há algum tempo, quando ventos novos me levaram para outros lugares, nada-comuns, e me fizeram crer em coisas que jamais imaginei ou sequer quis, mas que, aos poucos e cada vez mais, me faziam desacreditar no que a humanidade insistia em chamar de coincidência, “realização de alguns eventos que acontecem à sorte e em simultâneo, mas que aparentam ter algo em comum”, segundo o dicionário Aurélio. Misticismos, exoterismos e Paulo Coelho a parte, deixei de acreditar que isso era simples assim, apesar de sempre ter defendido a mediocridade humana diante dessa prepotência de achar que controlamos tanto quanto gostaríamos, ou que conhecemos 80% do céu. Também me tenta debochar daqueles que dão um significado cósmico ou extraordinário a qualquer coisa um mínimo atípica que aconteça, mas é preciso reconhecê-las quando elas pulam na sua frente e te agarram pelo pescoço. Extremismos nunca fizeram nada de bom.

Já o destino, ele continuava me atormentando. Desafiava as leis da física, leis de atração, metafísica ou inércia, que fosse, mas quando parecia ir embora, ele voltava, como se nunca tivesse dado sequer uma pista de que iria partir, talvez o contrário, cada vez mais forte. Esfregava na minha cara, a cada vez que voltava, o quanto não adiantava querer ignorá-lo ou fingir que não era (in)crível. Tínhamos um segredo – só nós sabíamos o que acontecera em terras tão distantes, em outras estações de outros tempos, e agora eu tinha uma dívida com ele – a cada vez que tentasse expulsá-lo ou negá-lo, ele voltaria com mais poder sobre mim, ou sobre nós, como queira. Ele não suportava ser ignorado ou desacreditado. Não tinha a ver com coincidências; elas eram só a fantasia e o disfarce que ele usou pra nos pregar doces e travessuras em pleno Julho.

(Mariana Pio)

sábado, 17 de novembro de 2012

Caos-sificado


O caos nos rodeava naquela mesma e velha cidade de sempre. Chegavam os tempos em que o ócio não trazia mais culpa, e todos procuravam algum jeito de fugir dali. As emoções não davam espaço pra qualquer tipo ou resquício de razão; as pessoas a minha volta pareciam agir tão passionalmente quanto eu – ou talvez eu estivesse agindo mais assim, como elas. Sem questionamento, isso já não me interessava mais, éramos todos frutos do mesmo meio, todos paridos pela mesma mãe Loucura, e pouco ou nada importava quem levara quem aonde. Chegamos a um ponto em que a própria razão, ou racionalidade, cedera seu lugar à paixão, cansada de tentar se expressar sem qualquer êxito, abs-traindo-se da responsabilidade de ser parte da grande e conflitante dualidade humana, conhecida causadora de culpa e dor. As pessoas, agora, fugiam para lados diversos, mas nem sempre opostos, como pombas no meio da rua. Todos viam esse novo ciclo como uma nova possibilidade – um desejo coletivo de se despir, se abandonar, sair de nós mesmos, e vestir qualquer outra coisa que significasse alguma coisa – qualquer coisa. Livrar-se dos velhos carmas, mas a verdade é que todos sabiam que aquele caos nos pertencia, e essas fugas só podiam durar alguns dias, até que ele se manifestasse de novo, esfregando em nossas caras o quanto era inútil fugir, e nos levando a fugir mais uma vez.

(Mariana P.)