O dilema da vez era alguma coisa
confusa e nebulosa sobre coincidências e destino. Eu não podia dizer qual a
relação entre eles e nem se acreditava ou não, especialmente agora, que só
fazia cambalear por aí muito bêbada ou chapada pra esboçar qualquer desejo de
filosofar ou pensar qualquer tanto que valesse sobre essas coisas corriqueiras
da vida. Que importa, no fim das contas? A efemeridade da idéia de coincidência
e a idéia da efemeridade de coincidências pararam de me rondar há algum tempo,
quando ventos novos me levaram para outros lugares, nada-comuns, e me fizeram
crer em coisas que jamais imaginei ou sequer quis, mas que, aos poucos e cada
vez mais, me faziam desacreditar no que a humanidade insistia em chamar de
coincidência, “realização de alguns eventos que acontecem à sorte e em
simultâneo, mas que aparentam ter algo em comum”, segundo o dicionário Aurélio.
Misticismos, exoterismos e Paulo Coelho a parte, deixei de acreditar que isso
era simples assim, apesar de sempre ter defendido a mediocridade humana diante
dessa prepotência de achar que controlamos tanto quanto gostaríamos, ou que
conhecemos 80% do céu. Também me tenta debochar daqueles que dão um significado
cósmico ou extraordinário a qualquer coisa um mínimo atípica que aconteça, mas
é preciso reconhecê-las quando elas pulam na sua frente e te agarram pelo
pescoço. Extremismos nunca fizeram nada de bom.
Já o destino, ele continuava me
atormentando. Desafiava as leis da física, leis de atração, metafísica ou
inércia, que fosse, mas quando parecia ir embora, ele voltava, como se nunca
tivesse dado sequer uma pista de que iria partir, talvez o contrário, cada vez
mais forte. Esfregava na minha cara, a cada vez que voltava, o quanto não
adiantava querer ignorá-lo ou fingir que não era (in)crível. Tínhamos um
segredo – só nós sabíamos o que acontecera em terras tão distantes, em outras
estações de outros tempos, e agora eu tinha uma dívida com ele – a cada vez que
tentasse expulsá-lo ou negá-lo, ele voltaria com mais poder sobre mim, ou sobre
nós, como queira. Ele não suportava ser ignorado ou desacreditado. Não tinha a
ver com coincidências; elas eram só a fantasia e o disfarce que ele usou pra nos pregar doces e travessuras
em pleno Julho.
(Mariana Pio)