Nada resta no lugar. Absolutamente. Um dia cheguei em mim e estava tudo uma bagunça. É preciso, entre outras coisas, tempo e sabedoria. Além disso, o que também é preciso é navegar. Viver, não. Enfim, são necessárias essas coisas pra reorganizar. E, principalmente, coragem. Disposição, música boa e um baseado podem ser bons também, pra jogar fora as coisas que caíram no chão - as quebradas principalmente. É necessário jogá-las fora, senão, nada feito - e pra baixo do tapete não conta. O que está cheio não pode ser preenchido com outras coisas (ou pode, se quiser transbordar, o que não é o meu caso). Muitas coisas novas já estavam se anunciando, então essas coisas velhas tiveram de ir. Elas começaram a se jogar no chão, se mutilar, se despedaçaram. Algumas, com minha ajuda; outras, por conta própria.
É um novo tempo; é preciso abraçá-lo e lhe dar as boas-vindas. Não é fácil, o que não quer dizer (de forma alguma) que não seja bom. Até porque, geralmente o que é bom nem sequer é fácil.
Deixar ir não é fácil. Costuma doer; às vezes demora pra cicatrizar também. De uma forma ou de outra, abrir espaço pras coisas novas é o objetivo. Só há um adendo: tem de ser de coração. Abrir espaço de verdade; boas-vindas sinceras é fundamental.
Renovar é preciso. De braços abertos é melhor.
Mariana em Arrheton
meus momentos de arrheton.
segunda-feira, 28 de abril de 2014
sexta-feira, 10 de maio de 2013
sem
(s)em velocidade
(s)em embriaguez
abandonei qualquer sinal.
passo direto, sem ver,
sem vez,
despida de qualquer sensatez,
de qualquer vestígio de lucidez.
deixei qualquer sinal
n'um lugar qualquer
onde ninguém verá,
onde ninguém nunca passará,
ou saberá
da minha nudez
nesta minha mudez.
aquele velho silêncio
que foi atropelado
por tanto barulho
voltou a correr
nas minhas veias.
me estupra
me invade
alguém de fato ouviu meu barulho?
os tempos em que meu coração fez alarde?
porque agora aquele silêncio
covarde
é minha coragem,
minha droga -
n'um consumo mútuo
nos matamos reciprocamente
promiscuamente
enquanto o engulo lentamente
feito mel,
doce que entope;
feito comprimido...
reprimido
já não sinto.
(s)em embriaguez
abandonei qualquer sinal.
passo direto, sem ver,
sem vez,
despida de qualquer sensatez,
de qualquer vestígio de lucidez.
deixei qualquer sinal
n'um lugar qualquer
onde ninguém verá,
onde ninguém nunca passará,
ou saberá
da minha nudez
nesta minha mudez.
aquele velho silêncio
que foi atropelado
por tanto barulho
voltou a correr
nas minhas veias.
me estupra
me invade
alguém de fato ouviu meu barulho?
os tempos em que meu coração fez alarde?
porque agora aquele silêncio
covarde
é minha coragem,
minha droga -
n'um consumo mútuo
nos matamos reciprocamente
promiscuamente
enquanto o engulo lentamente
feito mel,
doce que entope;
feito comprimido...
reprimido
já não sinto.
quarta-feira, 21 de novembro de 2012
Doces e Travessuras
O dilema da vez era alguma coisa
confusa e nebulosa sobre coincidências e destino. Eu não podia dizer qual a
relação entre eles e nem se acreditava ou não, especialmente agora, que só
fazia cambalear por aí muito bêbada ou chapada pra esboçar qualquer desejo de
filosofar ou pensar qualquer tanto que valesse sobre essas coisas corriqueiras
da vida. Que importa, no fim das contas? A efemeridade da idéia de coincidência
e a idéia da efemeridade de coincidências pararam de me rondar há algum tempo,
quando ventos novos me levaram para outros lugares, nada-comuns, e me fizeram
crer em coisas que jamais imaginei ou sequer quis, mas que, aos poucos e cada
vez mais, me faziam desacreditar no que a humanidade insistia em chamar de
coincidência, “realização de alguns eventos que acontecem à sorte e em
simultâneo, mas que aparentam ter algo em comum”, segundo o dicionário Aurélio.
Misticismos, exoterismos e Paulo Coelho a parte, deixei de acreditar que isso
era simples assim, apesar de sempre ter defendido a mediocridade humana diante
dessa prepotência de achar que controlamos tanto quanto gostaríamos, ou que
conhecemos 80% do céu. Também me tenta debochar daqueles que dão um significado
cósmico ou extraordinário a qualquer coisa um mínimo atípica que aconteça, mas
é preciso reconhecê-las quando elas pulam na sua frente e te agarram pelo
pescoço. Extremismos nunca fizeram nada de bom.
Já o destino, ele continuava me
atormentando. Desafiava as leis da física, leis de atração, metafísica ou
inércia, que fosse, mas quando parecia ir embora, ele voltava, como se nunca
tivesse dado sequer uma pista de que iria partir, talvez o contrário, cada vez
mais forte. Esfregava na minha cara, a cada vez que voltava, o quanto não
adiantava querer ignorá-lo ou fingir que não era (in)crível. Tínhamos um
segredo – só nós sabíamos o que acontecera em terras tão distantes, em outras
estações de outros tempos, e agora eu tinha uma dívida com ele – a cada vez que
tentasse expulsá-lo ou negá-lo, ele voltaria com mais poder sobre mim, ou sobre
nós, como queira. Ele não suportava ser ignorado ou desacreditado. Não tinha a
ver com coincidências; elas eram só a fantasia e o disfarce que ele usou pra nos pregar doces e travessuras
em pleno Julho.
(Mariana Pio)
sábado, 17 de novembro de 2012
Caos-sificado
O caos nos rodeava naquela mesma e velha cidade
de sempre. Chegavam os tempos em que o ócio não trazia mais culpa, e todos
procuravam algum jeito de fugir dali. As emoções não davam espaço pra qualquer
tipo ou resquício de razão; as pessoas a minha volta pareciam agir tão
passionalmente quanto eu – ou talvez eu estivesse agindo mais assim, como elas.
Sem questionamento, isso já não me interessava mais, éramos todos frutos do
mesmo meio, todos paridos pela mesma mãe Loucura, e pouco ou nada importava
quem levara quem aonde. Chegamos a um ponto em que a própria razão, ou
racionalidade, cedera seu lugar à paixão, cansada de tentar se expressar sem
qualquer êxito, abs-traindo-se da responsabilidade de ser parte da grande e
conflitante dualidade humana, conhecida causadora de culpa e dor. As pessoas,
agora, fugiam para lados diversos, mas nem sempre opostos, como pombas no meio
da rua. Todos viam esse novo ciclo como uma nova possibilidade – um desejo
coletivo de se despir, se abandonar, sair de nós mesmos, e vestir qualquer
outra coisa que significasse alguma coisa – qualquer coisa. Livrar-se dos
velhos carmas, mas a verdade é que todos sabiam que aquele caos nos pertencia,
e essas fugas só podiam durar alguns dias, até que ele se manifestasse de novo,
esfregando em nossas caras o quanto era inútil fugir, e nos levando a fugir
mais uma vez.
(Mariana P.)
(Mariana P.)
domingo, 28 de outubro de 2012
mulheres
Ela tinha uma mulher estampada na camisa, bem em cima dos peitos, que me encarava do outro lado da mesa no bar - bem de frente pra mim. A dona dos peitos e da camisa só me fuzilava com uns olhares de vez em quando, entre cigarros. Parecia que tinha acabado de conhecê-las, apesar dos anos, que sozinhos cuidaram de nos apresentar e depois nos afastar. Elas agora já dominavam a arte de me ignorar. Ah, aquelas mulheres...
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
coisa qualquer
Amanhecia e o céu deixava a escuridão por um azul gradativamente mais claro. Tínhamos passado a madrugada dançando num desses inferninhos espalhados pela cidade, e agora meus ouvidos zuniam e minha língua estava dormente de álcool. Vagamos por algum tempo pelas ruas já mortas do centro, e eu só queria me sentar em algum canto e continuar conversando com ele por tempo indeterminado, por isso sugeri o meio-fio. Então ficamos lá, jogados na calçada fumando um cigarro, enquanto o fluxo de carros e ônibus aumentava cada vez mais. Ele era lindo – usava all stars vermelhos e tinha cachos desgrenhados e os cílios grandes escondidos atrás dos óculos de aro preto. A conversa fluía maravilhosamente; havia algum tipo de conexão séria entre nós dois. Então cá estávamos nós, sozinhos, bêbados, divertindo um ao outro, e eu secretamente o enviava alguma mensagem telepática gritando que me beijasse ou que ao menos desse uma pista de que eu podia fazê-lo. O sol, a essa altura, começava a esquentar o dia, e eu começava a desejar uma cama, antes que derretesse numa poça de álcool dormido. Anunciei a partida e comecei o lento processo de me levantar do chão, sem desequilibrar ou desistir e dormir por ali mesmo. Então ele se levantou e, parado de frente pra mim, estendeu uma mão. Eu segurei nela e ele me puxou para cima, contra seu peito. Passei os braços em volta de seu pescoço e o abracei, sorrindo.
sábado, 23 de junho de 2012
era pra ser a dois.
Guardei um baseado pra gente fumar juntinho no fim do dia, quando esperava te encontrar e contar das correrias. O que eu não esperava era todo esse valor que supostamente (supostamente porque me recuso a acreditar que seja verdade) seria dado às besteiras que falei no outro dia, alucinando na mistura medíocre de remédio pra gripe com álcool. E também não esperava que isso fosse o suficiente pra desembocar nesse buraco, cujo fundo não posso ver e nem ouvir. Da última vez que senti isso, ficou a impressão de que tinha havido algum tipo de promessa de que não iria acontecer de novo - não assim, esse sofrimento derradeiro e desesperador, que eu julgava nem ser possível de ser sentido pelo motivo Amor, sabe como é né, dores do coração. Mas era possível sim, tão possível que está aqui de novo me fazendo companhia madrugadas afora, com música de raiva e música de fossa... Cá estamos nós indo por caminhos diferentes nas bifurcações que nos aparecem por aí. Então você não quis me ver, e o baseado ficou lá, largado no console do carro, e agora faz dias que o queimo, pouquinho a pouquinho, até acabar de vez, aproveitando a onda pra levar mais numa boa os dias sem você.
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