quarta-feira, 1 de agosto de 2012

coisa qualquer

Amanhecia e o céu deixava a escuridão por um azul gradativamente mais claro.  Tínhamos passado a madrugada dançando num desses inferninhos espalhados pela cidade, e agora meus ouvidos zuniam e minha língua estava dormente de álcool. Vagamos por algum tempo pelas ruas já mortas do centro, e eu só queria me sentar em algum canto e continuar conversando com ele por tempo indeterminado, por isso sugeri o meio-fio. Então ficamos lá, jogados na calçada fumando um cigarro, enquanto o fluxo de carros e ônibus aumentava cada vez mais. Ele era lindo – usava all stars vermelhos e tinha cachos desgrenhados e os cílios grandes escondidos atrás dos óculos de aro preto. A conversa fluía maravilhosamente; havia algum tipo de conexão séria entre nós dois. Então cá estávamos nós, sozinhos, bêbados, divertindo um ao outro, e eu secretamente o enviava alguma mensagem telepática gritando que me beijasse ou que ao menos desse uma pista de que eu podia fazê-lo. O sol, a essa altura, começava a esquentar o dia, e eu começava a desejar uma cama, antes que derretesse numa poça de álcool dormido. Anunciei a partida e comecei o lento processo de me levantar do chão, sem desequilibrar ou desistir e dormir por ali mesmo. Então ele se levantou e, parado de frente pra mim, estendeu uma mão. Eu segurei nela e ele me puxou para cima, contra seu peito. Passei os braços em volta de seu pescoço e o abracei, sorrindo.